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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

'Você é muito bonita', porém...

Esta postagem é uma espécie de resposta ao André Miranda, repórter da Globo, que publicou esse texto AQUI. Sei que provavelmente ele nunca lerá, mas eu tenho que escrever algo só para livrar a minha consciência.

Eu não vejo motivo algum para deixar as cantadas masculinas em paz. Não, melhor: eu não vejo motivo algum para ACEITAR as cantadas masculinas. Aliás, não só masculinas. Cantadas vindas de qualquer gênero são péssimas.
Não vejo diferença alguma entre uma pessoa desconhecida que me chame de "linda" e outra que me chame de "gostosa": ambas representam perigo para a minha pessoa. Mesmo que não seja realmente um perigo, é isso que nós, mulheres, sentimos quando alguém, no meio da rua, que você nunca viu na sua vida, começa a te elogiar - ou, no caso de "gostosa", a falar grosseiramente com você. (É, eu considero "gostosa" uma grosseria. E das grandes.)

Por falar em "gostosa": claro que adoramos ouvir isso de desconhecidos. Óbvio que amamos ser comparadas à comida no meio da rua. Afinal, mulher serve é para isso mesmo, não é?
Não me incomodo que um ficante, um namorado, uma pessoa que eu goste me chame de gostosa. Mas eu CONHEÇO essa pessoa e dei liberdade para tal. Sim, por mais incrível que pareça a você, é necessário uma intimidade maior para dizer uma coisa dessas!

85% das mulheres deveriam ter ido à delegacia fazer uma denúncia quando um homem passou a mão em seu corpo sem permissão. Faríamos isso, se não tivéssemos medo. Se a pessoa teve a coragem de passar a mão em mim, como vou saber o que mais ela poderia fazer? E, voltando um pouquinho: se uma única palavra já representa um perigo para a gente, imagine o que uma passada de mão representa. É puro terror. E considerando que várias dessas passadas de mão acontecem em lugares fechados, como as baladas, não se espante se a nossa reação for simplesmente sair de perto, procurando ficar o mais longe possível da pessoa.

Se um homem se interessa por uma mulher na rua, ele deve puxar papo, e não espalhar aos quatro ventos que a acha um pedaço de mau caminho. Ele deve perguntar as horas cordialmente, sorrir, fingir que está perdido e pedir uma indicação, agradecer pela atenção e então comentar alguma coisa, como "Muito obrigada pela ajuda. Aliás, sua voz é muito bonita". Sim, essas coisas, por mais idiotas que pareçam, funcionam.

Se alguém fala "Você é linda", do nada, no meio da rua, para mim, eu não vou procurar o autor da frase. Eu não vou parar de andar e olhar para a pessoa. De modo algum ficarei analisando a pessoa para saber que tipo de pessoa é. Eu simplesmente continuarei andando, algumas vezes até mais rápido, porque eu tenho medo. M-E-D-O.

Nos tempos atuais, não dá para confiar em ninguém. Outro dia mesmo li, não me lembro onde, que quando um homem sai à rua, ele tem medo de ser assaltado; uma mulher, de ser estuprada. E é verdade.

E só para descontrair um pouquinho: você iria gostar de saber que um completo desconhecido chamou a sua mulher ou a sua filha ou a sua mãe de "gostosa" na rua? É, não parece tão elogioso agora, parece?

2 comentários:

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